Armaduras - estilo gótico alemão
- 21 de ago. de 2016
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O exemplar escolhido para representar a armadura gótica foi possuído pelo duque Sigmund de Tyrol e se encontra atualmente no Kunsthistorisches Museum em Viena. Datado de 1480, foi dado a Sigmund pelo imperador Maximilian I, seu sobrinho, em razão de seu casamento com Katherina da Saxônia em 1484. A obra é de autoria de Lorenz Helmschmid, um mestre armoreiro da renomada família Helmschmid (que significa literalmente “fazedor de elmos”) e preferido pelo imperador.
As armaduras góticas apareceram em meados do séc. XV e perduraram até o seu fim, sendo produzidas somente pela escola alemã de armoraria, uma das mais conceituadas da época, ao lado da milanesa.
Dos vários ofícios medievais, dois eram de especial interesse para a classe guerreira e dominante. Estamos falando da armoraria e da armaria. Numa sociedade bélica como a medieval, onde as relações entre os nobres são sustentadas por laços de suserania e vassalagem, e a arte da guerra, justas e ordens de cavalaria são fortes elementos culturais é de se esperar que o ofício que propicia o reconhecimento desta classe e garante a manutenção (ou seria segurança?) do indivíduo nela (um cavaleiro sem armadura é tão útil quanto um ferreiro sem martelo) deva receber uma relevância especial.
Esta corrida entre as armas e armaduras, tal qual a corrida espacial nas décadas passadas, será de suma importância para o desenvolvimento da metalurgia, forjaria, maquinários e da tecnologia no geral. Saímos do séc. XIII com cruzados vestidos inteiramente em malhas, sem condições de forjar grandes placas de ferro, e chegamos ao séc. XV com o desenvolvimento completo das armaduras de placas 10 , com novos processos mecânicos e químicos para se extrair o ferro, técnicas avançadas em metalurgia (enriquecimento do ferro em aço, têmpera em armaduras, controle de impurezas), novas ferramentas robustas (como os martelos hidráulicos) e a habilidade para se trabalhar o metal e lhe dar toda a sorte de curvas, relevos, pontas, vincos e detalhes.
A origem do gótico:
O estilo se originou, como já mencionado antes, na abadia de SaintDenis, perto de Paris, onde se exemplificou a visão do abade Suger. Suger queria criar uma representação física da Jerusalém Celestial, uma construção com alto grau de linearidade que aspergisse luz e cor. A primeira verdadeira construção gótica foi o coro da igreja, consagrado em 1144. Com finas colunas, janelas em vitrais, e uma sensação geral de verticalidade e eterialidade, o coro de Saint-Denis estabeleceu elementos que seriam futuramente ampliados durante o período gótico. O estilo foi primeiro adotado pelo norte da França e Inglaterra, e depois se espalhou pela França, os Países Baixos, Alemanha, Espanha e norte da Itália.
O gótico aplicado as construções e armaduras:
A catedral gótica era presumida em ser uma representação microcósmica do mundo, e cada conceito arquitetônico, principalmente a altura e as imensas dimensões da estrutura, tinham a intenção de passar uma mensagem teológica: A grande gloria de Deus versus a pequenez dos mortais.
O conceito do vertical está intimamente ligado à armadura de Sigmund, sendo um dos seus elementos mais óbvios. Comparando Sigmund à outra armadura de sua época,notam-se a cintura estreita e as formas mais alongadas, com estrias correndo por todo o corpo, sempre com uma tendência vertical, terminando em pontas que lembram arcos ogivais. Arcos estes que são outro elemento intrínseco da arquitetura gótica.
O que se segue é uma análise conceitual, de como os elementos do gótico constroem/interagem na simbologia da armadura e do cavaleiro. Não perderemos a catedral de vista, de fato continuaremos a usá-la como objeto primário da analogia, mas agora indo além dos elementos arquitetônicos. A figura do cavaleiro é, antes de tudo, um arquétipo, inclusive na Idade Média, inclusive para aqueles que eram cavaleiros. Tal qual um arquétipo Jungiano, representa o ideal do cavaleiro, sua essência e, portanto, é inatingível. Sua armadura reluzente é o reflexo de sua pureza, o cavaleiro é sagrado, não só sagrado por ser uma arca de virtudes, mas ativamente faz esforços para salvar os indefesos e promulgar a honra, verdade e justiça. Pronto para enfrentar os inimigos, pronto para morrer. Parece que a morte chega bem rápido ao cavaleiro, pois um sacrifício por uma virtude é também uma virtude. Com tudo isto, parafraseando Ítalo Calvino 16 , só podemos supor que o cavaleiro não existe, apenas como utopia almejada. A armadura real tem um objetivo bem claro, proteger o corpo de ataques e investidas, mas certamente adquire um valor maior, tendo visto que é ostentada não apenas em tempos de guerra, mas por vezes é um traje social, e da melhor estirpe.
Fonte:http://www.armaduras.com.br/artigos/armadura_gotica_1.3.pdf
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